quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Pensações


25 é ó número ímpar que antecede o 26 e sucede o 24.

25 é o nome do álbum de 2006 de George Michael, o qual conta com três discos intitulados "For living", "For loving" e "For the loyal". Nenhum dos três conta com um música chamada 25.

25 aparece, porém, em alguns títulos de músicas de The Police, Zager & Evan (???), Elvis Costelo, Halford (???) e Edwin Starr (???), sob a forma de minutos para a meia-noite, ano e milhas.

25 anos atrás, o ano ainda era 1986 e Lêdo Ivo (poeta alagoano, como eu) foi eleito para a cadeira 10 da Academia Brasieira de Letras; o fime Curtindo a Vida Adoidado foi lançado e muitas pessoas voltaram a prestar atenção atenção a Twist and Shout dos Beatles; Iolanda Fleming tornou-se a primeira mulher a governar um estado brasileiro; eu estava esperando alguns dias para vir ao mundo.

Sendo assim, com a proximidade do meu aniversário, eu parei para pensar: o que fazer 25 anos significa? Para mim, claro, significa que ainda sou uma estudante, que ainda não tenho emprego (mesmo com uma aprovação num concurso) e que há algum tempo deixei de ser promessa para o futuro para ser quase um peso morto do presente. Seja como for, pelo menos, eu aprendi alguma coisa: aprendi que vou ter que aprender um monte de coisas pelo resto da minha vida e que, por mais que o tempo passe, a gente não muda radicalmente. Como disse certo personagem, de certo filme nada cult ou digno de nota, de acordo a maior parte dos intelectuais por aí, "você sabe o que é assustador? é que quando você fica mais velho, as coisas ficam mais confusas". Elas deveriam ficar mais claras e lógicas, certo? Até agora, só tive o ônus de TER que ser compreensiva o tempo todo e dar uma de sensata porque, do contrário, você é imatura.

Na verdade, eu nem posso reclamar. Eu não passo fome, não estou devendo as calças, tenho onde dormir, minha família e eu temos saúde; meus amigos (tenho poucos) são pessoas legais, saudáveis e sinceras. Por que eu haveria de reclamar, oras? Porque parece que quando estou chegando lá, o lá dobra uma esquina muuito, muuuito comprida e eu tenho que caminhar mais e mais! Só por isso! Fazer 25 anos é como acordar e perceber que (a) você é um jovem adulto que precisa construir um lugar seu no mundo, (b) precisa de consquistas profissionais URGENTES, (c) suas conquistas não são lá grande coisa para os outros, simplesmente porque você só cumpriu uma parte das expectativas alheias e (d) sempre haverá motivos para reclamar.

Enfim, se é que eu posso aconselhar e dividir essa coisa que resolveu me assombrar com alguém (prestes a também completar 25 anos ou não) que eventualmente caia aqui, eu gostaria de dizer:

1. Sabe quando você tinha 13 anos e não queria saber da opinião dos outros porque você é quem você é e fim de história? Não é que você PRECISE dar satisfação da sua vida para os jornais, mas tudo o que você faz e diz está condicionado a interpretações.

2. É claro que algumas interpretações são deliberadamente maldosas, mas não tenha AQUELA mania de perseguição de achar que todos estão falando da sua vida. Às vezes, um comentário é só um comentário.

3. Evite dizer que Fulano sofre de ausência de bom julgamento, que utiliza parâmetros condenáveis e que é digno de pena. Não estou dizendo para você se calar diante da falta, mas saiba criticar. Não diga isso sem expor suas razões. Isso é feio e te transforma num Ciclano, um irmão torto do Fulano.

4. Saia da rotina um pouquinho. Isso ajuda. Ajuda em qualquer empreendimento. Sério. Experiência própria.

Acho que é só. :)
Pronto. Agora, estou mais aliviada.

sábado, 21 de maio de 2011

Resumo de capítulo sobre a pragmática

Produzi este resumo em 2008 para uma disciplina do curso. Está aí e espero que ajude alguém que possa cair aqui. =D




TAVARES, Roseanne Rocha. Pontos de Partida. In: _____. A negociação da imagem na pragmática: por uma visão sociointeracionista da linguagem. Maceió: EDUFAL, 2007.


Em sua apresentação para A Negociação da Imagem na Pragmática: por uma visão sociointeracionista da linguagem, intitulada “Pontos de Partida”, Tavares explica que a pesquisa apresentada em seu livro percebe a linguagem como uma atividade entre indivívduos de um grupo, a qual é constituída e modificada por seus atores sociais e contexto. A autora traz, para seu texto, definições da pragmática e algumas considerações sobre a Análise da Conversação e a Sociolingüística Interacional.
           Tavares explica que o termo pragmática foi introduzido em 1938 e representava um dos três ramos da semiótica. Esse ramo constituía o estudo das relações entre os signos e seus usuários. A pesquisadora, porém, ao citar Levinson, expõe a incerteza dos limites da disciplina em questão, uma vez que ela também apresenta interesses nas relações entre a estrutura da língua e os seus princípios de uso. Para Levinson, a Pragmática tem como foco de estudo o implícito, os atos de fala e o processo de produção da língua, bem como seus produtores.
        A autora também cita Armengaud para definir atos de fala, contexto e desempenho. A primeira expressão se refere ao fato de a linguagem servir para realizar ações, a segunda indica a situação concreta em que os atos de fala são emitidos e a terceira, a própria realização do ato em contexto. Tavares defende, assim, que a disciplina estuda o comportamento da linguagem humana de forma mais profunda e integral.
                A pesquisadora passa, então, a analisar os atos de fala e, para tanto, cita Austin. Ela explica que os enunciados constativos são frases declarativas avaliadas como verdadeiras ou falsas. Os proferimentos performativos, por sua vez, podem ter ou não êxito de ação e são categorizados como felizes ou não-felizes. Tavares termina suas considerações a respeito dos atos de fala explicando que os dois tipos de enunciado constituem apenas um, pois o ato constativo seria apenas um performativo bem disfarçado.
                Como o uso da língua também representa o interesse da Pragmática, Tavares traz, para seu texto, Grice para explicar que existem princípios subjacentes à conversação que lhe facilitam o processo. Surge, então, como uma corrente da Pragmática, a Análise da Conversação, que analisa os atos de fala, dêixis etc.
    A AC apareceu, explica Tavares, na década de 1960, sob influência da Etnometodologia, e defende o estudo de práticas conversacionais do cotidiano e interações institucionais, em diversos contextos e culturas. Para isso, a AC utiliza gravações de falas reais que possam representar um determinado fenômeno. Esse tipo de procedimento foi usado, com bons resultados, em pesquisas em sala de aula.
  Tavares termina seu texto citando Schiffrin, que explica que a Sociolingüística Interacional compreende a existência de uma estreita relação entre língua, cultura e sociedade. Dessa forma, para a SI, em um encontro interacional, os interlocutores participam ativamente da elaboração do discurso, exigindo reações de seu ouvinte e reagindo a elas. A autora, então, afirma que a sala de aula gera eventos de fala e atividades entre professor e aluno.
 São muitos os fatores que influenciam a aprendizagem de uma língua estrangeira, mas uma interação bem-sucedida facilita esse processo de aprendizagem e a negociação da imagem representa estratégias discursivas para lidar com diversas pesquisas dedicadas ao fenômeno interacional e que seu trabalho pode favorecer reflexões sobre a interação verbal e o ensino de línguas, bem como melhorar o desempenho do professor no tocante à negociação da imagem entre eles e seus alunos.

domingo, 13 de março de 2011

REPRESENTAÇÕES DO CORPO E DO ESPAÇO EM BODY OF GLASS, DE MARGE PIERCY [1]

Para citações: MACENA-GOMES, Nayara. Representações do corpo e do espaço em Body of Glass, de Marge Piercy. In: II Seminário Nacional Literatura e Cultura, vol. 2, 2010,  São Cristóvão: GELIC, 2010. ISSN 2175-4128

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Why should our bodies end at the skin, or include at best

other beings encapsulated by skin? (HARAWAY, 1991, p.

178)

     Com o objetivo de analisar a relação entre as representações do corpo e do espaço no romance Body of Glass (1992) [2], de Marge Piercy, enquanto artefatos produzidos sócioculturalmente, o presente trabalho observa como esses elementos e o vínculo estabelecido com o conceito de gênero revelam possibilidades utópicas, observando e analisando também o debate entre as ciência biológicas e as sociais a respeito da importância da natureza e da cultura.

     Embora as ciências humanas reforcem o fato de o ser humano se diferenciar dos outros seres por estar ligado à cultura, construindo o mundo ao seu redor e sendo construído por ele, as ciências evolutivas ainda defendem o determinismo biológico. Dessa forma, o recorte para análise justifica-se pelo fato de as noções de espaço e gênero ainda serem, muitas vezes, associadas a binarismos baseados em hierarquias que privilegiam um pólo em detrimento do outro, como no par natureza/cultura.

     Este trabalho perpassa os campos dos estudos de gênero e da utopia, possibilitando mostrar como a ficção utópica contemporânea de autoria feminina tem renovado o gênero

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utópico tradicional em relação às formas narrativas e suscitado debates acerca, por exemplo, das estratégias adotadas por essas escritoras para subverter as convenções de gênero utópico e da ficção científica, como a representação de mulheres apenas como coadjuvantes e, até mesmo, objetos de estudo dentro de uma visão masculina de mundo e de ciência, o que reflete a postura patriarcal e reforça noções dualistas.

     Neste contexto, a análise das relações entre as representações do corpo, gênero e do espaço justifica-se pelo fato de os conceitos desses elementos serem construídos e rpresentados dentro da cultura. Entendê-los fora do contexto cultural resultaria no desaparecimento de gênero e em “um corpo ontologicamente vazio, um obstáculo ao conhecimento de mundo, um acessório acidental” (ZOZZOLI, 2005, p. 53).

     O estudo dos espaços, por sua vez, revela-se importante para a investigação das utopias e distopias devido às recorrentes definições que englobam a etimologia da palavra, as quais entendem que a utopia encontra-se fora da nossa área e/ou nosso tempo. Além disso, assim como os conceitos de corpo e gênero, as concepções acerca do espaço também são filtradas pela cultura, devendo ser percebido como “um conjunto de formas contendo cada qual frações da sociedade em movimento” (SANTOS, 1988, p. 10).

     Etimologicamente, a definição de utopia aponta para uma presumida negação – o sufixo ou (não) ligado a topos (lugar) – faz referência a um espaço que não existe e “instaura uma dimensão temporal alternativa, que repousa e se legitima numa determinada noção de futuro” (CAVALCANTI; CORDIVIOLA, 2006, p. 09).

     Porém, popularmente, a utopia tem sido definida como algo impossível ou difícil de ser alcançado e foi apresentada ao público, pela primeira vez, com o lançamento da obra de Thomas More em 1516, a qual inaugura o gênero literário que descreve uma sociedade ideal num lugar imaginário, onde tudo é bem planejado, quase sempre hierarquicamente.

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     Dentro desse tipo de utopia, porém, o papel da mulher foi sempre o mesmo, o que, historicamente, a transformou em cidadão de distopias. Como resultado, as recentes ficções científicas projetam horizontes utópicos em narrativas distópicas produzidas a partir de formas resistentes e oposicionais de escrita.

     As utopias de autoria feminina, por sua vez, projetam sociedades que costumam ser mais abertas e anárquicas, tendendo a mostrar preocupações com o trabalho diário da sociedade, o qual deve ser tão valorizado quanto aqueles carregados de prestígio.

     O aspecto utópico da ficção científica de autoria feminina revela-se, assim, não somente preocupado com a presença do sujeito feminino na ciência, estabelecendo parcerias no lugar de relações de dominação que anulam a subjetividade, mas também com outras dimensões sociais envolvidas, como a efetiva participação na esfera pública (PIERCY, 2003).

     Apesar de parecem campos de conhecimento distintos e destacados um do outro, existe, como afirma Goodwin (1990), “uma longa história de afinidade entre eles” (p. 01) [3]. O discurso utópico sempre constituiu um modo narrativo de formas que produzam situações ideais.

     A definição de feminismo de Goodwin propõe o beneficiamento da comunidade humana. Observa-se, assim, a inclinação do feminismo para a utopia, que encontra nas ficções científicas um campo profícuo para realidades originais e novas possibilidades de leitura.

     Neste contexto, o romance de Marge Piercy desenha espaços híbridos complementares e personagens que refutam aquelas noções dualistas a que grande parte das feministas se opõe. Sem se fechar num modelo único de utopia, Body of Glass sugere

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possibilidades para a construção de um espaço melhor e reitera compreensões de utopia enquanto

Gênero tradicionalmente associado a lacunas: entre o que nós temos e o

que gostaríamos de ter; entre o que gostaríamos de ter e o que o outro

prefere; entre nosso medo de possibilidades e as palavras que encontramos

para construí-las (GOODWIN; FALK JONES, 1990, p. IX).

     A narrativa de Body of Glass explora justamente essas lacunas e permite a leitura de “entre-lugares” [4] e formas de perceber o corpo, em que as fronteiras do natural e do artificial se confundem. As alterações tecnológicas representadas no romance constroem sociedades que se diferenciam no tocante à ordenação e as espacialidades, cujas formas mais rígidas são desestabilizadas por grupos ligados a espaços de resistência.

     Configurado como uma obra de ficção científica com dimensões que transitam entre o distópico e o utópico, que não nos permite acesso, o romance em questão tece espacialidades e metáforas para focalizar relações de poder desequilibradas, sem deixar de oferecer alternativas subversivas, conforme observo a seguir.

     Com forte influência pós-moderna, a estrutura de Body of Glass é composta por duas narrativas: a primeira parte, com elementos de ficção científica, é narrada em terceira pessoa e se passa na segunda metade do século XXI. O lugar é Norika e corresponde aos atuais territórios do Canadá e dos Estados Unidos. Esta vasta região tornou-se um ambiente tóxico, com vários domos controlados por multinacionais, como a Yakamura-Stichen, as quais substituíram as formas de governo dos nossos dias.

     Fora desses domos, a sobrevivência seria praticamente impossível, uma vez que a camada de ozônio desapareceu, os arrozais e trigais do mundo foram cobertos pelo oceano ou viraram desertos e as pessoas poderiam ser atacadas por traficantes de órgãos. A maior

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parte da população vive nas chamadas Glops, áreas extremamente poluídas onde as pessoas vivem de lixo reciclado. Entretanto, existem algumas cidades livres do controle das multi por se localizarem em zonas instáveis e, por isso, não interessam aos grandes grupos corporativos.

     Nesta narrativa, os principais eventos são: a perda da custódia do filho (Ari) da protagonista Shira para o ex-marido Josh (fato que mais tarde se revel como uma conspiração contra a personagem e sua cidade natal), sua volta para Tikva, a socialização do ciborgue Yod e o relacionamento estabelecido com Shira, o seqüestro de Ari e o relacionamento afetuoso entre o menino e Yod, a destruição do ciborgue, a morte de Avram (cientista que criou Yod) e a partida de Malkah (avó de Shira) para uma terra desconhecida.

     A outra narrativa realiza-se em primeira pessoa. Malkah conta como o rabino Judah Loew criou um golem Joseph para defender a cidade medieval de Praga contra o motim cristão. Sua neta Chava, à semelhança de Shira e Malkah, responsabiliza-se pela educação de Joseph. Mas, quando a relação entre cristãos e judeus fica menos tensa e Joseph acha que pode se casar com Chava, Loew decide retorná-lo ao barro e morre em Israrel.

     Encontra-se nas narrativas aproximações entre as funções exercidas pelos ciborgue e golem, pois ambos foram construídos sob o pretexto de defesa, bem como entre o papel do rabino que se repete em Malkah.

     Entre as duas narrativas, interessa, sobretudo, a primeira devido à multiplicidade de representações do corpo e do espaço. Inicialmente, portanto, faz-se necessário trazer pressupostos teóricos sobre os principais conceitos que nortearam a pesquisa.

    Como afirma McDowell (2007), muitas boas introduções aos estudos feministas mostram como, tradicionalmente, o espaço público tem sido associado aos homens e a

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esfera privada, às mulheres. Neste enfoque, porém, o corpo nem sempre é contemplado por levantar questões a respeito das diferenças físicas entre homens e mulheres Em resposta a este desconforto, uma vasta literatura tem surgido e privilegia não somente as diferenças de gênero, mas também a forma como a sociedade o regula e o observa como um todo. O corpo tem sido, então, um objeto de preocupação teórica cujos significado, forma e experiência são associadas às práticas sociais.

     Tema presente em vários trabalhos, o corpo e seus diversos conceitos foram pensados de diferentes maneiras e, historicamente, desconsiderados em função da mente, numa relação oposicional. Contra essas idéias, a teoria feminista coloca o corpo “no centro da ação política e de produção teórica” (idem, ibidem, p. 20). O corpo torna-se então algo positivo, que é reconstruído sócio e culturalmente, exprime marcas, valores e limites sociais, bem como define socialmente o masculino e o feminino.

      O reconhecimento desta multiplicidade de representação de corpos pode, dessa forma, suscitar análises sociais e literárias, cujo afastamento da perspectiva binária implica transformações políticas.

     Para Foucault (1967), o corpo também constitui um lócus físico, concreto, moldável e transformável por técnicas biopolíticas e disciplinares, envolvido com relações de poder as quais funcionam como uma estratégia de apropriação, da mesma forma pela qual os espaços são apropriados pelas sociedades. Desta maneira, os corpos fazem parte de uma rede de lugares e superfícies dispersas no espaço (MITCHELL, s/d).

     Body of Glass revela como a sociedade/cultura (re)constrói os ambientes e o papel da tecnologia na integração dos espaços, em um mundo resultante das atuais práticas econômicas. As relações entre esses espaços e as representações do corpo, como aponta este estudo, subvertem posturas recorrentes do patriarcado.

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     O primeiro espaço descrito, os domos, apresenta-se como a dimensão mais distópica, onde todos os aspectos da vida de seus membros são controlados e devem corresponder a uma identidade essencial. O risco a que estes enclaves expõem seus habitantes é o de estabelecer categorizações que negam a alteridade.

     Esse controle se estende desde a manutenção do ambiente até os corpos. “Todos estavam conscientes de serem observados, de serem julgados” (BG, p. 07). A cultura, a aparência e o espaço são controlados de tal modo que mascaram o fato de viverem estaticamente. Além disso, o contínuo processo de reforma/mudança de corpos/aparência representa, nesta comunidade, uma maneira de manutenção da ordem vigente através do descarte. Bauman (2007) afirma que o consumo e o descarte constituem condição sine qua non para a existência de tal sociedade e constitui “o exato oposto da utopia” (p. 108).

     A política de descarte aplicada ao consumo também é adotada como forma de disciplinar o corpo e suas experiências. Os padrões de imagem oferecidos simulavam uma “igualdade utópica” que buscava, na verdade, o apagamento da alteridade e a apropriação do corpo pela corporação.

     Em contraste ao ambiente dos domos, onde a padronização e a disciplina sugerem dimensões distópicas, a Glop apresenta-se como um espaço oposto ao primeiro. O simples fato de sobreviver, mesmo sem a proteção da radiação que os enclaves possuem já representa uma forma de resistência.

     A principal forma de oposição, entretanto, é o movimento dos Coyotes, liderado por Lazarus, que pretende criar uma rede de comunicação alternativa àquela que, embora pública, é controlada pelas corporações. Essa nova rede deve oferecer uma forma mais democrática de acesso e servir à comunidade, “fora da [rede] deles, paralela a ela” (BG, p. 417).

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     Deste ambiente caótico surgem, assim, dimensões utópicas que se manifestam nas variadas representações do corpo e cultura. A variedade de corpos que circula pela Glop opõe-se ao padrão estabelecido pelo domo da Yakamura-Stichen (Y-S) e revela maior fluidez também no tocante à construção identitária. Essa construção de identidades híbridas subverte estruturas binárias e estabelece laços com o espaço de Tikva, a cidade livre para onde Shira retorna após perder a guarda de Ari.

     Em Tikva, os hibridismos não se referem somente às fusões de elementos orgânicos e inorgânicos, mas principalmente às hibridações identitárias, que influenciam diretamente o entendimento sobre gênero.

     Os corpos presentes nesses dois espaços (Glop e Tikva) resistem à política de disciplina praticada pelas corporações, o que pode ser observado por meio de personagens como Lázaro, que não possui alterações tecnológicas em seu corpo. À semelhança da rede que deseja criar, situa-se fora da rede dos domos, mas, ao mesmo tempo, paralelo a ela.

     Shira, por sua vez, precisou sobreviver à padronização dentro do domo. Para tanto, ela adotou o uso dos uniformes de seu nível tecnológico, mas não passou por procedimentos para alterar seu corpo.

     No caminho inverso, Yod “nasce” como um amontoado de peças inorgânicas que recebe elementos orgânicos. O ciborgue e Nili (habitante da Zona Negra) apresentam os corpos mais alterados da narrativa, mas essas hibridações não se restringem ao real e ao virtual, pois as configurações biológicas que imprimem características aos seres não são suficientes para a determinação de gênero.

     Yod apresenta traços tradicionalmente concebidos como masculinos, femininos e neutros, mas é Malkah quem configura a identidade com maiores cisões e une as duas

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fábulas através da narração da história do golem a Yod. Assim como o ciborgue que ajudou a criar, sua identidade não é inteira e sugere uma alternativa ao espaço no qual os personagens estão inseridos.

     Ao narrar o mito do golem, Malkah ganha relevância não somente para o enredo, mas também para interpretações sociais, uma vez que, como já foi mencionado, é ela quem une as duas narrativas e ocupa, dessa forma, um espaço público de produção histórica, cujo acesso às mulheres é reduzido pelo patriarcado.

     Embora Shira seja a responsável pela socialização de Yod, nota-se que a participação de Malkah na criação do ciborgue é fundamental no processo de assujeitamento. Ela o torna um indivíduo ao estabelecer uma analogia entre ele o golem, um mito que estabelece vínculos históricos e sociais com a sociedade de Tikva.

     Augé (1992) explica que “a representação do indivíduo é, necessariamente, uma representação do vínculo social que lhe é consubstancial” (p. 22). Embora a  estimulado por Malkah, seria apenas o de uma arma com consciência de sua existência.

     Esse espaço com que as personagens estabelecem afinidade pode compor uma das representações do “espaço simbólico” concebido por Augé (idem). O etnólogo explica que esses espaços são universos mais ligados ao reconhecimento do que ao conhecimento. Ao ocupar o espaço público de (re)produtora da história, Malkah tornou esse espaço e a sua linguagem híbridos.

     O espaço mais próximo da utopia também busca sobreviver. A Zona Negra é inicialmente apresentada como uma mancha negra no mapa devido ao holocausto nuclear.

     Aos poucos surgem novas informações sobre o lugar desértico e uma personagem que habita, juntamente com sua comunidade, o lugar.

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     No entanto, tal sociedade não é descrita, mas constitui, como aponta Cavalcanti (2007), uma metáfora sobre gênero e o lugar do feminino na cultura. A ausência/presença desta terra “promove a imbricação perfeita na obra entre sua forma e seu conteúdo ao fazer a ambivalência original do termo cunhado por Thomas More: o bom lugar é o não lugar” (p. 12).

     Portanto, esse espaço e os corpos altamente ampliados que figuram aqui, como o representado por Nili, oferecem possibilidades de leitura de um novo começo a partir da desconstrução de antigos valores. A Zona Negra floresce num espaço destruído pelo holocausto nuclear, onde seus habitantes (uma sociedade formada apenas por mulheres) têm o poder sobre seus corpos e sexualidade.

     À guisa de conclusão, é nesse lugar identificado apenas como uma mancha negra no mapa, que é citado, mas não descrito, que a utopia é reescrita em oposição aos espaços que apresentam traços utópicos. Todos os outros espaços, mesmo que opostos aos domos, constituem, de algum modo, um espaço distópico para as mulheres, uma vez que delineavam os mesmos papéis e lugares ocupados historicamente pelas mulheres.

     Na Zona Negra, entretanto, os redimensionamentos descritos sugerem metáforas para compreensões culturais e de subjetividade a partir da desconstrução da lógica binária, por meio das hibridações entre orgânico e inorgânico.

     Body of Glass oferece possibilidades de reconstrução literária e social da noção de gênero a partir dos redimensionamentos do corpo, ratificando, dessa forma, a concepção de gênero enquanto construto social, priorizando o surgimento de identidades em detrimento de categorias binárias fixas.

     A narrativa permite, ainda, especulações sobre espaços simultâneos, cujas fronteiras entre o que é, tradicionalmente, considerado natural ou artificial se confundem,

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estabelecendo, conseqüentemente, relações com as hibridações do corpo presentes no romance. A variedade espacial descrita permite a desestabilização de formas sociais rígidas, as quais são representadas na obra principalmente pelos espaços e corpos controlados que passam por mudanças excessivas, motivadas pelo consumo e mascaram o congelamento imperante.

     A obra também questiona a fronteira que se estabelece entre o que é humano ou não através da diminuição das diferenças entre ciborgues, humanos e golems, por exemplo, que configuram verdadeiros borrões, ou uma “miopia focalizada” (CAVALCANTI, 1999), que não permitem compreensões calcadas em binarismos e oferecem metáforas do discurso pós-moderno para uma reorganização da sociedade e da cultura.

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Notas

[1] Este estudo foi patrocinado pelo CNPq por meio do PIBIC/UFAL, entre agosto de 2007 e julho de 2009, quando foram realizados os sub-projetos “Representações do corpo em Body of Glass, de Marge Piercy” e “Representações dos corpos espacializados em Body of Glass, de Marge Piercy”, vinculados a um projeto mais amplo denominado “O utopismo literário de autoria feminina em língua inglesa: diálogos férteis com a crítica feminista, a antropologia e a biologia evolutiva”, sob a orientação da profa. dra. Ildney Cavalcanti.
[2] As referências a esta obra, em citações, serão feitas com a abreviação BG seguida pelos número de páginas.
[3] Todas as traduções do inglês são minhas, salvo quando relacionadas nas referências.
[4] Termo pensado por Bhabha (2003), o qual se refere à possibilidade estratégica de unir elementos tradicionalmente considerados incompatíveis, permitindo a interação entre indivíduos e culturas diferentes num espaço de negociação, definido como o próprio lugar da cultura.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS


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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

(Sem título)

OBS: OK, indivíduos, acabei mesmo de encontrar um texto que escrevi quando estava no segundo ano do colégio! Para quem não sabe, uma vez, eu resolvi me meter nessas coisas de grêmio (como diria um amigo meu: "são os arroubos da juventude..." Sim, Pedro, eu me referi a você, queridão). Eu sempre me interessei por essas coisas de natureza, meio-ambiente, preservação de recursos, utilização de fontes renováveis e coisa e tal. Bem, o negócio é que acabei me inscrevendo no grêmio do colégio para participar da secretaria de meio-ambiente. Ainda me lembro da cara da minha quando eu falei que estava no grêmio... Ela achou que eu sairia às ruas com a cara pintada e voltaria pra casa toda "estrupiada" depois de uma surra da polícia militar. Acho que ela também imaginou a possibilidade de ter que me buscar na delegacia. Entendo a preocupação dela . Minha mãe viveu boa parte de sua juventude sob o governo  militar, alguns professores das universidades, naquela época, simplesmente sumiram. Eu expliquei a ela que as metas do movimento estudantil eram outras e tal... O presidente Lula estava no poder e tal e tal, mas mãe é mãe. No final  das contas, eu acatei as ordens de "mainha" e  a minha GRANDE (para não dizer o contrário) contribuição foi a publicação de um texto, bem... um texto inadjetivável (se é que essa palavra existe) no jornal do grêmio, que eu disponibilizo para vocês rirem um pouco (de mim). Ahh, para quem ficou curioso em relação ao final da história: não, eu nunca confrontei a polícia, nem quando era contra o aumento da passagem de ônibus. Nunca quis ver minha ficar louca. Foi a minha irmã mais nova quem botou um nariz de palhaço e sentou no meio do trânsito para protestar contra isso. Minha mãe só soube no final do dia, quando a Mayra chegou em casa torrada do sol e meio rouca de tanto gritar junto com o pessoal do grêmio do qual eu fazia parte. Hoje a minha irmã se aperta toda, mas pega táxi. Ahh, os arroubos da juventude...

Enfim, o texto:

"Estive lembrando algumas coisas realmente nojentas, algo que os americanos dos filmes chamariam de F*ckin' disgusting things. Voltando para casa no 'Biu Bus', vi passar pela catraca um homem na faixa dos trinta anos, muito bem vestido com seu uniforme que dizia 'Civis" e mais alguma coisa que eu não consegui ler. Fiquei ali admirando os cabelos impecáveis e os sapatos que, apesar de gastos, estavam bem limpos. Olhei pela janela a paisagem mudando feito camaleão no percurso Ponta Verde-Shopping... De repente, um movimento estranho no braço do camarada me chamou a atenção: uma coçadinha nervosa na ponta do nariz, algo como um aviso de corpo estranho no salão. O dedo indicador que, outrora, numa infância não tão distante, fora pequeno o sufiiente para ir lá dentro buscar a danada da cat... (vocês sabem o que é), parecia hoje grandinho demais para isso. O costume, porém, foi mais forte. Vendo que não obtivera êxito, tentoiu, enfim, o mindinho. Com dificuldade, ele conseguiu ir mais além e tentou encontrar o pedaço de muco endurecido que o incomodava. Girou o dedobde um aldo para outro, mas a 'fujona' sambava entre os pêlos curtos.

A apreensão tomava conta dos olhos do proletário, mas os gestos eram tão calmos e naturais como os comedidos passos de um gato passeando pelos telhados. Finalmene, uma sensação de satisfação, imagino eu, tomou conta daquele simples funcionário (simples, sim, porque perdeu toda a elegância com o ato totalmente... inominável). Ele segurou com firmeza aquela bolinha marrom, olhou com desprezo para ela e a  jogou pela janela entreaberta. Entendo essa história por outro lado, a Sra. C... é agora uma desabrigada voando ao sabor do vento, totalmente sem destino.

Essa coisa toda, bastante nojenta, me recordou o banheiro feminino no fim da aula de natação: um mar de cabelos. Não que eu deteste cabelos. Longe de mim!  Eu adoro cabelos e todos eles têm a sua beleza: lisos, ondulados, cacheados, crespos, loiros, castanhos, ruivos e pretos. A natureza é bela e criou uma maravilhosa moldura para nossos rostos, mas, definitivamente, o lugar deles é na cabeça do/a respectivo/a dono/a! Nada pior do que pisar em um monte de cabelos abandonados sobre o chão molhado. Há quem goste. Chitãozinho e Xororó, por exemplo, cantaram 'Aquele fio de cabelo comprido já esteve grudado em nosso suor'. Além de cabelo, tem suor misturado e vocês conhecem o ditado: onde tem suor, te, cheiro de azedo."

Essa foi a minha magnífica contribuição para o jornal do grêmio quando eu tinha uns 17 anos... Nossa, como eu era criativa, não?!